domingo, 1 de março de 2015

Aldeias do Soajo

QUANDO CHEGUEI A CASA, DEPOIS DESTA CAMINHADA, NÃO QUERIA ACREDITAR SER POSSÍVEL, TANTA BELEZA.
Não foi mais uma caminhada! Foi singular, um misto de ruralidade profunda, dureza, sofrimento e admiração, a cada passo, pelo trabalho produzido por gentes que já não existem mas são os nossos esteios. Como aqueles que seguram os espigueiros. Perduram quando tudo já é efémero.
Não é necessário inventar a “máquina do tempo”, basta fazer o trilho das aldeias do Soajo. Aqui, somos capazes de visualizar como se vivia em tempos muito remotos, como trabalhavam os campos, como se caçava, como guardavam os rebanhos, como o povos se protegiam das intempéries e rigores do inverno e os calores do verão.
Todo este património está aqui presente, como as fragas gastas dos caminhos. Autênticos sulcos, desgastados pelo labor das pessoas e da força de trabalho dos seus animais.
Tudo neste trilho foi em crescendo e surpreendendo pela quantidade de cascatas de água cristalina, piscinas naturais, moinhos, casas pequenas desenhadas nos montes, como nos postais de inverno, caminhos estreitos de pedras reboliças e lisas, muros altos, feitos de blocos irregulares de granito, revestidos a musgo de várias tons de verde e amarelo, com giestas em flor, também amarelas e brancas, que nos seguram, deixando-nos tropeçar em segurança.
As montanhas sucederam-se durante os vinte e quatro quilómetros, a chuva foi aumentando, o peso da roupa também, o nevoeiro, assim como as luzes das aldeias distantes que começavam a distinguir-se e a revelar, afinal, presença humana.
Hoje, um de março, a Vila do Soajo recebeu os vinte e nove calcantes na feira, que acontece, no primeiro domingo de cada mês, entre Janeiro e Setembro e, no primeiro dia de cada mês entre Outubro e Dezembro. É uma montra de produtos naturais e regionais: Artesanato, alfaias, animais de capoeira, alimentos frescos retirados da terra e produzidos em casa.
Já era tarde, e a chuva molha “tolos” prenunciava o batismo, não só dos novatos caminheiros mas de todos sem exceção. Contudo, o optimismo era grande, todos imaginavam outro devir.
Com os impermeáveis vestidos, quase só se viam os olhos, tal era o cuidado. Transformados em tartarugas ninjas, estes seres, não foram resultado de um desastre qualquer mas da necessidade de transpor um dilúvio e um nevoeiro que mais parecia, à distância, o “Bojador” e o intransponível e fantástico Adamastor.
Começamos por visitar a eira comunitária (a eira do penedo) com os seus imponentes vinte e quatro espigueiros em cantaria. Estas construções humanas, considerados como imóveis de interesse público e símbolo do Minho, apresentam sempre duas grandes cruzes, ligando interesses terrenos ao divino e ao profano.
Segundo se sabe, surgiram numa altura de abundância de cereais e de ratos. Era necessário proteger as espigas do cereal num local arejado, impedindo que os rastejantes subissem e cobiçassem o que não era deles. A necessidade aguça o engenho o que levou o Homem a idealizar um sistema de quatro grandes mós, cada uma delas colocada nos pés dos espigueiros, travando, desta forma, o avanço de qualquer ruidor mais atrevido e esfomeado.
Com a animação que nos carateriza, metendo conversa aqui e acolá sobre feitos e glórias alcançadas, atingimos, lá no fundo, junto ao Rio Soajo, uma clareira onde se destaca uma bela ponte e uma meia encosta, com uma casita coberta pela verdura onde pouco branco sobressai.
Serra acima, vai-se afigurando um quadro que lembra o Douro, pelos socalcos. Prendem as terras dos lameiros mas, neste caso, cercados por paredes que entre si formam caminhos labirínticos. Não fosse o nevoeiro podíamos observar, perto da Várzea, no seu miradouro, o Rio Lima e o seu meandro, contornando a serra oposta à nossa.
O São Pedro, “porteiro do reino dos céus”; guardião das chaves que "Abrem e fecham as portas e janelas do céu”, continuou todo o tempo zangado. Fartou-se de soprar contra nós, rajadas de vento, tornando a chuva gelada.
Abespinhado estava também o “Zeus”, o senhor do céu e o Deus da chuva, por lhe terem queimado as suas terras e plantado eucaliptos e mimosas, frisando, no entanto, o cheiro agradável dos primeiros e as cores do segundo.
Indiferentes a tudo isto, excepto a nós, pastavam livremente os garranos nas encostas da serra. Também, com toda a calma que possam imaginar, as vacas davam a sua voltinha pelos caminhos que as levavam a casa. O gado caprino e ovino, quase sempre liderado por um canídeo, parava para observar atentamente tais intrusos, que já só imaginavam os rojões cozinhados numa moradia próxima. Encantamo-nos com o cheiro mas foi com Quivis e laranjas que enganamos a fome.
Vida de caminheiro ...
Almoçamos num alpendre da Casa do Povo, numa aldeia solitária, com uma igreja minúscula no meio da rua, onde, de cada lado, só passa uma pessoa. É só aparentemente fria, recebeu-nos com o conforto que necessitávamos.
Em direção a Adrão observamos grandes Aves - Abutres ou Grifos, seguindo altivamente todos os nossos movimentos. O Rio Adrão dá vida a esta aldeia, quase deserta. As suas águas, deslizando por cima dos rochedos, criando ondas e rápidos, entoam e passam pela ponte a grande velocidade. Sou capaz de ver nos olhos de quem aqui habita toda a felicidade e beleza natural.
Pelo alcatrão extendido até ao Soajo, “queimamos as botas”. Como com uma serpentina, aproveitamos para meditar, recuperar a nossa sabedoria interior e a sensação de que estamos no controlo da nossa vida.
Esta caminhada chegou ao fim onde cada um colecionou, não coisas, mas momentos muito agradáveis para os quais somos todos responsáveis. Vencedores porque não nos limitamos a imaginar cenários, pelo contrário, fizemo-los e fomos atores e atrizes, numa peça de teatro que aqui fica. Sejamos Felizes.
Venha mais uma ........
                                                                  Adelino Ramos

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